SEPARAÇÃO DO SUL (a partir de um artigo de Roberto Johannes Olivier Rodrigues)
Durante uma conversa com moradores de algumas regiões da Amazônia, fui questionado sobre a possibilidade de uma aliança com o movimento separatista do sul do Brasil, sob o argumento de que tal união poderia auxiliar na descentralização do poder de Brasília e na retomada da autonomia estadual para a exploração de recursos naturais como petróleo, ouro, diamante e madeira.
A resposta dada foi negativa. O movimento separatista sulista baseia suas expectativas na diplomacia e no debate superficial, carecendo do histórico de confronto necessário para sustentar uma ruptura dessa magnitude. Historicamente, conflitos ocorridos na região sul, como a Guerra dos Farrapos, foram travados por trabalhadores do interior, vaqueiros e minorias marginalizadas, enquanto as lideranças políticas conduziam as negociações em gabinetes. Atualmente, a tentativa de criar um novo Estado por meio de mobilizações virtuais ignora as leis da física e da economia real. Uma análise matemática e de dados demonstra que a separação resultaria na inviabilidade econômica do próprio Sul, devido à sua dependência estrutural em relação ao restante do território nacional.
No aspecto energético, o Brasil é abastecido pelo Sistema Interligado Nacional, uma malha de transmissão de alta tensão que supera cento e oitenta mil quilômetros de extensão e interliga os subsistemas Norte, Nordeste, Sudeste Centro-Oeste e Sul sob a coordenação do Operador Nacional do Sistema Elétrico. A capacidade instalada da matriz elétrica centralizada atinge a marca de duzentos e dezessete gigawatts, sendo predominantemente renovável, onde a fonte hidráulica responde por mais de cento e oito gigawatts, conferindo a estabilidade de base necessária ao país. As fontes eólica e solar centralizada somam mais de cinquenta e quatro gigawatts, complementadas pela geração distribuída com cerca de quarenta e nove gigawatts. O limite de intercâmbio e escoamento de excedentes energéticos das regiões Norte e Nordeste em direção ao Sudeste e Centro-Oeste está dimensionado em dezoito mil e quinhentos megawatts, evidenciando como a estabilidade elétrica das regiões de maior consumo depende do fluxo de energia gerada nos grandes complexos do Norte e Nordeste.
Uma interrupção estratégica em linhas de transmissão e subestações essenciais paralisaria o fornecimento elétrico nacional por um período prolongado, afetando majoritariamente a região Sul devido ao corte desse fluxo de suprimento. O acionamento do Esquema Regional de Alívio de Carga cessaria o abastecimento de diversas cidades de forma automática e proposital para proteger as usinas hidrelétricas de variações extremas de frequência e sobrecargas que poderiam destruir os geradores. Embora torres de transmissão metálicas possam ser recuperadas em curto prazo por equipes de campo, os grandes transformadores de subestações que operam em tensões de duzentos e trinta quilovolts a oitocentos quilovolts são equipamentos pesadíssimos, customizados e que não existem em estoque para pronta entrega.
O colapso energético resultaria no esgotamento das baterias de telecomunicações nas primeiras vinte e quatro horas, interrompendo os serviços de internet e telefonia. Consequentemente, o sistema bancário digital seria paralisado, inviabilizando transações comerciais por cartões ou Pix. O saneamento básico também sofreria interrupção após o segundo dia, devido à parada das bombas elétricas de tratamento e distribuição de água.
O argumento separatista fundamentado na capacidade industrial sulista omite a dependência geográfica e material da região. O polo industrial de Joinville e a região metropolitana de Curitiba, referências na produção de bens de consumo duráveis e motores, não possuem jazidas próprias de minério de ferro. O abastecimento depende do minério extraído na Serra dos Carajás, no Pará, e no Quadrilátero Ferrífero, em Minas Gerais, transportado por ferrovias e cabotagem. Com a separação, o Sul passaria à condição de comprador internacional, sujeitando-se a tarifas de exportação e fretes dolarizados, o que elevaria o custo do aço em mais de quarenta e cinco por cento de forma imediata, retirando a competitividade da indústria local frente à brasileira.
Ademais, a produção de tecnologia e eletrodomésticos no Sul restringe-se à montagem de componentes. Os insumos básicos, como plásticos de alta resistência provenientes do refino petroquímico do Sudeste, além de madeira e celulose originárias do Norte e do Centro-Oeste, seriam submetidos a barreiras alfandegárias e impostos de importação. A perda do livre comércio interno inviabilizaria o abastecimento dos polos tecnológicos sulistas.
O questionamento ao Pacto Federativo, baseado na premissa de que o Sul arrecada mais impostos do que recebe da União, também carece de exclusividade. O estado de São Paulo arrecada e envia mais recursos federais do que os três estados sulistas somados, cenário que se repete no Rio de Janeiro e em Minas Gerais. A retenção tributária local nesses estados não geraria riqueza imediata, pois a necessidade de estruturar uma máquina pública completa, incluindo Ministério da Defesa, Forças Armadas, representações diplomáticas, Banco Central e moeda própria, consumiria o superávit fiscal e resultaria em déficit e inflação.
O Sul independente demonstra-se insustentável mercadologicamente. Com uma população estimada em trinta milhões de habitantes, a produção industrial da região é dimensionada para atender a um mercado consumidor de mais de duzentos milhões de pessoas, sendo que mais de setenta por cento dos produtos industrializados sulistas são comercializados nas regiões Norte, Nordeste e Sudeste.
O objetivo estratégico viável não é a fragmentação territorial do Brasil, que destruiria a economia de todas as regiões, mas sim a manutenção da unidade nacional associada ao controle dos recursos. Busca-se a descentralização do poder de Brasília para que as riquezas minerais e florestais sejam revertidas em progresso local, sem a submissão aos interesses da capital federal. A meta central consiste na reestruturação do modelo federativo, garantindo que a arrecadação tributária permaneça prioritariamente nos cofres dos estados produtores. O repasse ao governo federal deve ser limitado ao estritamente necessário para a segurança das fronteiras e a representação diplomática. A gestão dos recursos deve ser deliberada pelas comunidades locais que operam a produção, evitando a interferência de burocratas.
A divisão territorial estabeleceria barreiras comerciais prejudiciais ao fluxo de mercadorias. O interesse reside na continuidade do fornecimento de matérias-primas e energia ao Sul, mantendo a aquisição de sua produção tecnológica e agrícola, porém sem a intermediação tributária excessiva de Brasília. A autonomia federativa plena permitirá que cada estado explore seu potencial máximo e gerencie suas receitas, eliminando a dependência de repasses federais.
O posicionamento macroeconômico e estratégico indica que a concretização do separatismo submeterá a nova nação às regras de mercado internacional, exigindo o pagamento de valores de mercado pelas commodities da Amazônia, sem concessões tarifárias.
A atuação proposta fundamenta-se no conhecimento técnico e na defesa rigorosa dos interesses regionais. A complexidade geográfica e climática da Amazônia, distribuída por biomas distintos, exige uma compreensão profunda que escapa aos movimentos externos. Qualquer intervenção ou conflito em território amazônico enfrentará a resistência intransigente das populações locais. Adicionalmente, tentativas de neutralização de lideranças regionais desencadearão reações coordenadas de ampla escala, envolvendo o apoio de setores civis, econômicos e de quadros das forças de segurança que aguardam o alinhamento estratégico para atuar na preservação da integridade territorial e dos recursos da região.
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