Dólar, SWIFT, sanções econômicas e inflação
O Acordo de Bretton Woods, firmado após o término da Segunda Guerra Mundial, estabeleceu as bases do sistema financeiro internacional do pós-guerra. Os Estados Unidos detinham a maior reserva de ouro do mundo e possuíam o parque industrial mais desenvolvido, uma vez que foram a única grande potência a sair do conflito sem destruição em seu território. A conversibilidade do dólar americano em ouro conferiu à moeda norte-americana o papel de principal reserva internacional e de referência para as transações comerciais mundiais.
Dessa forma, o dólar transformou-se em um poderoso instrumento de dominação financeira. Com a criação do sistema internacional de liquidação de pagamentos, posteriormente operacionalizado pelo SWIFT, grande parte das transações internacionais passou a depender, direta ou indiretamente, da moeda norte-americana. Isso permitiu aos Estados Unidos utilizar sanções econômicas como instrumento de política externa contra governos, empresas e indivíduos considerados contrários aos seus interesses. Compreender esse mecanismo é fundamental para entender muitos dos acontecimentos geopolíticos do último século. Ele constituiu uma das principais ferramentas utilizadas para reforçar a percepção da suposta superioridade do capitalismo em relação ao socialismo.
Os primeiros cinquenta anos após a revolução russa que criou a União Soviética, experimentou um crescimento nunca visto antes como o seu “momento Sputinik”. No entanto, o sistema capitalista começou a retornar na União Soviética após o falecimento de Stalin e terminou por consolidar com Gorbachov.
Após 1945, a maior parte da população mundial vivia em países de orientação socialista, muitos países ainda se encontravam em processos de independência ou de transformação política, marcados por disputas entre projetos socialistas, capitalistas e lutas anticoloniais. Enquanto o núcleo central do sistema capitalista era formado pelos Estados Unidos e pelas economias que mais tarde comporiam o G7.
As sanções econômicas e outras formas de pressão política foram utilizadas contra diversos países socialistas. Foram operações conduzidas por agências de inteligência, como a CIA, o MI6 e o Mossad, apoiaram movimentos políticos destinados a desestabilizar governos socialistas, provocar crises econômicas e estimular revoltas populares como as conhecidas Revoluções Coloridas. Como consequência, vários desses países abandonaram seus antigos sistemas socialistas e passaram a integrar a economia capitalista mundial como economias periféricas no sistema-mundo capitalista descrita pelo sociólogo estadunidense Emmanuel Wallerstein.
O planejamento centralizado da União Soviética não dependia tanto do sistema financeiro capitalista que o Ocidente havia construído, pois se tratava de um "grande Estado", cuja estrutura industrial era altamente integrada e interconectada. Ela teve um crescimento econômico nunca visto até então. No entanto, a reintrodução do capitalismo na antiga União Soviética desestruturou esse modelo econômico, eliminando o planejamento centralizado que coordenava essa integração produtiva. Dessa forma, a fragmentação desse império em diversos "pequenos Estados" rompeu essa conectividade, permitindo que as sanções econômicas ocidentais fossem aplicadas em toda a sua plenitude e eficácia.
A mídia mainstream sempre concentrou suas críticas no sistema socialista desses países antes de sua mudança para o capitalismo, mas raramente analisou o que ocorreu após a restauração do capitalismo, quando, em maioria dos casos, as condições econômicas se deterioraram ainda mais. O discurso predominante enfatiza o subdesenvolvimento e a eterna promessa de um progresso inevitável rumo ao desenvolvimento, promessa que frequentemente jamais se concretiza, ocultando, ao mesmo tempo, os efeitos persistentes do colonialismo, tema tratado apenas superficialmente por Karl Marx. As principais exceções foram os Tigres Asiáticos, que passaram da condição de países periféricos para semiperiféricos em razão da estratégia de globalização promovida pelos países centrais do capitalismo. A maior exceção, entretanto, foi a China, que alcançou o status de país desenvolvido. Esse resultado decorreu de diversos fatores, mas seu crescimento acelerado ocorreu principalmente após a sua admissão na Organização Mundial do Comércio, que representou o fim das sanções econômicas ocidentais.
Os poucos países que permaneceram sob regimes socialistas continuaram submetidos a sanções econômicas durante décadas, o que limita significativamente as suas possibilidades de desenvolvimento. O caso da China deve ser analisado separadamente, por se tratar de uma civilização milenar, dotada de um vasto território, com abundantes recursos naturais e uma população numerosa, capaz de gerar riqueza por meio de seu expressivo capital humano.
Os Estados Unidos passaram a consumir suas reservas com o mundo dividido em duas esferas de influência – capitalismo e socialismo, inicialmente para financiar Revoluções Coloridas e sucessivas intervenções militares contra governos socialistas, além de movimentos internos como o macarthismo. Esse aumento dos gastos tornara-se insustentável ao final da Guerra do Vietnã, quando suas reservas foram exauridas, impossibilitando a manutenção da conversibilidade do dólar em ouro. A solução encontrada foi substituir o lastro metálico por outra âncora: o petrodólar. Em um acordo firmado com a OPEP, estabeleceu-se que o petróleo — então a principal commodity do mundo — seria comercializado em dólares, e as receitas obtidas pelos países produtores seriam reinvestidas em ativos financeiros americanos. Em contrapartida, os Estados Unidos garantiriam proteção militar às monarquias do Oriente Médio por meio da instalação de bases militares em seus territórios.
Suponha que uma empresa de um país aliado dos Estados Unidos precise comprar produtos de outra empresa, também localizada em um país aliado, no valor de US$ 100 mil. O banco da empresa compradora debita esse valor de sua conta e envia uma instrução ao seu banco correspondente nos Estados Unidos para transferir os recursos ao banco correspondente da empresa vendedora. A compensação e a liquidação da operação são realizadas por esses bancos correspondentes. Esse é, em linhas gerais, o funcionamento do sistema SWIFT. Embora o SWIFT seja apenas um sistema de troca de mensagens entre instituições financeiras, sua estrutura, originada na época das comunicações telegráficas, faz com que as operações levem alguns dias para serem concluídas e gerem receitas (taxas) para os bancos correspondentes, que atuam como intermediários. A maior parte das transações internacionais em dólares americanos ocorre dessa forma.
Os Estados Unidos mantêm o controle sobre o dólar mesmo quando essa moeda está depositada em bancos estrangeiros, seja na Europa, na Ásia ou em qualquer outra parte do mundo, incluindo a China. Como a liquidação das operações em dólares depende do sistema financeiro americano, os Estados Unidos exercem controle efetivo sobre essas transações, independentemente da localização física dos depósitos. O Departamento do Tesouro pode excluir bancos do sistema financeiro baseado no dólar caso eles processem operações envolvendo países ou entidades sancionadas. Na prática, isso significa que os reguladores americanos podem impedir o acesso dessas instituições ao sistema de compensação em dólares, congelando seus recursos em qualquer lugar do mundo.
Um depósito em dólares mantido em um banco estrangeiro é, na realidade, um registro contábil que representa uma obrigação desse banco perante seu cliente. O valor econômico desse ativo depende inteiramente da possibilidade de o cliente movimentar esses recursos. Por essa razão, praticamente todos os bancos que operam internacionalmente em dólares necessitam manter relacionamento com um banco correspondente nos Estados Unidos.
O SWIFT é um sistema de mensagens, não realiza compensação e nem a liquidação bancária. Ela ocorre por meio das contas de bancos correspondentes e dos sistemas de pagamento dos bancos centrais (como o Fedwire nos EUA).
Esse é o mecanismo de congelamento dos fundos em moeda americana dos países nas quais os países que são sancionados pelos EUA. O órgão americano que controla ativos estrangeiro é o OFAC (Office of Foreign Assets Control) que faz parte do Departamento de Tesouro dos EUA e o responsável por aplicar e fiscalizar as sanções econômicas e comerciais impostas pelo governo americano.
Quando os Estados Unidos impõem sanções contra pessoas físicas, empresas, organizações, setores econômicos, governos ou países, os alvos são incluídos na lista chamada de SDN (Specially Designated Nationals). A partir desse momento, todas as empresas, cidadãos e bancos americanos ficam proibidos de fazer negócios com ela e são obrigados a bloquear qualquer propriedade sob a sua custódia.
Quando um banco estrangeiro é incluído na lista SDN, seus bancos correspondentes nos Estados Unidos são legalmente obrigados a congelar imediatamente todos os recursos mantidos em depósito. A partir desse momento, nenhuma movimentação financeira pode ser realizada. Nenhum pagamento pode ser enviado ou recebido em dólares, pois qualquer tentativa de transferência será bloqueada ou terá seus recursos retidos pelo banco correspondente.
Existe ainda outro efeito importante. Embora o banco esteja sob sanções, seus clientes individuais podem não estar. Ainda assim, as contas desses clientes acabam ficando praticamente paralisadas, pois a instituição perdeu o acesso ao sistema financeiro em dólares e na prática, as contas deles acabam sendo congeladas.
O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos também atua em estreita colaboração com reguladores europeus. O SWIFT é um sistema de mensagens entre bancos, e seu uso torna ainda mais fácil para os reguladores bloquear recursos. O SWIFT é utilizado por bancos do mundo inteiro, inclusive por aqueles que não operam em dólares. Portanto, excluir um banco do sistema SWIFT praticamente interrompe suas operações tanto em dólares quanto em euros.
Não se trata exatamente do mesmo mecanismo de congelamento decorrente da inclusão na lista SDN, mas movimentar recursos sem acesso ao SWIFT torna-se extremamente difícil e oneroso.
Imagine um país totalmente sancionado pelos Estados Unidos, como Cuba ou Irã. Eles são impedidos de comercializar com outros países, ou seja, exportar o seu excedente e importar produtos que o país necessita para a sua economia. Isso impede o crescimento de um país de porte pequeno e médio, pois um país grande possui recursos próprios talvez não no volume suficiente, mas o necessário para crescer. Países de grande porte, embora também sofram os efeitos das sanções, costumam dispor de uma base produtiva e de recursos naturais mais diversificados, o que lhes permite absorver parte desses impactos e manter um certo nível de desenvolvimento.
Por exemplo: o Iraque não pode comprar eletricidade do Irã porque esse comércio precisa ser realizado em dólares. Isso ocorre devido ao acordo com os Estados Unidos que faz com que as receitas das vendas de petróleo iraquiano passem primeiro por bancos americanos.
Até recentemente, isso representava um momento decisivo para as finanças globais e para a geopolítica.
Os países do BRICS pretendiam criar seu próprio sistema em algum momento, mas não tinham grande urgência. Até então, essas sanções econômicas eram aplicadas contra países pequenos ou no máximo médios como Cuba e Irã. Tudo mudou na aplicação dessa ferramenta contra um país grande e com grandes reservas no Ocidente no caso da Rússia.
O ouro que não pode ser sancionado, era depositado tradicionalmente em cofres na Inglaterra, para manter a segurança em casos de revoluções internas em países depositantes. Após o caso russo, os países começaram a retornar os lingotes para os seus próprios países para evitar que o mesmo aconteça com eles.
Porém, quando os ativos do banco central russo foram congelados na União Europeia e nos Estados Unidos, isso acelerou enormemente os esforços dos países do Sul Global para se afastarem desse sistema.
Cerca de 300 bilhões de dólares em reservas russas de ouro e moedas estrangeiras estavam sob custódia em bancos fora da Rússia.
Era dinheiro que empresas russas já haviam ganho com a venda de energia para os europeus. De repente, elas perderam o acesso a esses recursos.
As transações internacionais entre os países eram feitas em quase a sua totalidade em dólares americanos até tempos recentes, antes da China criar um sistema alternativo chinês – CIPS que contorna o sistema Swift, utilizando a sua moeda Yuan.
A China, porém, pode comprar milhões de barris de petróleo iraniano fora do sistema do dólar.
O comércio de petróleo entre China e Irã funciona de maneira semelhante a uma troca: o petróleo iraniano é enviado à China, enquanto a China constrói infraestrutura no Irã. Isso foi feito inicialmente como parte da Iniciativa Cinturão e Rota (Rota da Seda). A China começou a estocar ouro e essa é a forma de dar liquidez para a sua moeda fora da China e que pode ser utilizada para converter os eventuais saldos comerciais favoráveis aos parceiros.
A China é o maior produtor de ouro do mundo e desde meados da década de 2010, é proibida a exportação de barras de ouro padrão (bullions) com um sistema de controle governamental. É divulgado apenas as reservas do Banco Popular da China que oficialmente possui 2.300 toneladas e não existe informações sobre o volume em outras entidades estatais que mantêm estoques estratégicos. Estudos baseados em produção interna, importações e fluxo de ouro, estima-se que possa acrescentar pelo menos 6.000 toneladas adicionais.
Essa é a estrutura financeira que China e Irã criaram. Em nenhum momento são utilizados dólares americanos. E, obviamente, nenhum recurso passa por bancos correspondentes em Nova York.
O Irã exportou 43 bilhões de dólares em petróleo no ano passado, e 90% desse petróleo veio para esta região. A venda do restante do seu petróleo para outros mercados na Ásia, que utiliza esse sistema alternativo.
O sistema SWIFT é um sistema de mensagens entre bancos do mundo inteiro, inclusive por aqueles que não operam em dólares. Mesmo os que não operam em dólares americanos, mas precisam de um banco (americano) correspondente nos EUA sem a qual não conseguem liquidar as transações internacionais já realizadas, uma vez que a transação foi efetuada em dólares americanos como moeda padrão de transações. Isso representava um momento decisivo para as finanças globais e para a geopolítica.
Além disso, os bancos americanos deixaram de obter bilhões de dólares praticamente sem risco, deixando de receber as taxas sobre o comércio fora do sistema dólar.
Este é um sistema é coercitivo e entender os riscos que empresas e países enfrentam ao fazer negócios em dólares.
A China, a Rússia e os outros países da maioria global criaram seu próprio sistema financeiro fora do dólar americano e, em particular, fora dos sistemas bancários ocidentais. Agora eles estão expandindo esse sistema.
Os países do BRICS estão realizando uma parcela cada vez maior de seu comércio em suas próprias moedas locais e, dessa forma, evitam completamente o risco de ter seus recursos congelados ou confiscados por reguladores em Washington ou na União Europeia.
Países e empresas estão se afastando do dólar americano e dos bancos ocidentais, e esse processo está se acelerando.
A demanda por um sistema alternativo sempre existiu, mas faltava a infraestrutura necessária para viabilizá-lo. Em outras palavras, era preciso criar e testar novas redes de pagamentos e liquidação financeira.
Foram estabelecidos acordos bilaterais de comércio fora do sistema baseado no dólar americano e nos bancos europeus, e esses acordos estão crescendo rapidamente.
Esses acordos bilaterais permitem a conversão direta entre as moedas de dois países, sem a necessidade de utilizar o dólar como moeda intermediária. As operações são realizadas por meio de câmaras de compensação. Paralelamente, também foi necessário criar novas bolsas de commodities, com regulamentações e procedimentos específicos para esses novos sistemas de negociação.
Tanto empresas quanto governos emitem títulos de dívida para financiar suas obrigações. Até recentemente, a maior parte dessas emissões era denominada em dólares americanos, euros e ienes. Embora os títulos em yuan, conhecidos como Panda Bonds, existam há mais de vinte anos, foi apenas nos últimos anos que passaram a ganhar maior relevância, impulsionados pelas taxas de juros mais baixas e pelo aumento dos riscos geopolíticos.
Os Panda Bonds são títulos de dívida emitidos por governos e empresas estrangeiras no mercado financeiro chinês, denominados em yuan. Para a China, esse instrumento vai muito além da simples captação de recursos. Ao financiar agentes estrangeiros em sua própria moeda, o país avança na internacionalização do yuan e cria circuitos de crédito independentes do sistema bancário ocidental e escapam das sanções americanas que poderiam congelar suas reservas financeiras. Além disso, existe uma importante dimensão jurídica: os prospectos desses títulos normalmente estabelecem que eventuais disputas sejam resolvidas de acordo com a legislação e os tribunais chineses, e não sob a jurisdição dos tribunais ocidentais que tradicionalmente regem grande parte da dívida soberana internacional.
Os emissores incluem empresas chinesas com operações internacionais, empresas estrangeiras que fazem negócios na China e também entidades soberanas, como governos e bancos centrais que necessitam de acesso ao yuan para atender às necessidades de suas economias nacionais.
Embora esse mercado exista há bastante tempo, sua demanda vem crescendo rapidamente devido às elevadas taxas de juros em outras partes do mundo e à abertura gradual do mercado de dívida chinês para novos emissores. Cada vez mais instituições estrangeiras utilizam o yuan como fonte de financiamento de longo prazo.
Ao mesmo tempo, diversos bancos centrais estão aumentando a participação tanto do yuan quanto do ouro em suas reservas internacionais, reduzindo sua exposição ao dólar americano. Além disso, disponibilizam yuan às empresas nacionais para facilitar e ampliar o comércio com a China.
Empresas que conseguem captar recursos a taxas mais baixas obtêm uma vantagem competitiva significativa. O custo do capital é um dos principais fatores que determinam a competitividade empresarial. Empresas que negociam com a China e conseguem captar recursos em yuan estão pagando juros inferiores aos cobrados até mesmo de alguns governos. Em um ambiente de competição global, o acesso a capital barato tornou-se um fator decisivo para o crescimento das empresas.
Nesse contexto, Wall Street e os bancos europeus enfrentam um grande desafio caso outras instituições consigam captar e emprestar recursos em yuan enquanto eles permanecerem restritos aos mercados tradicionais.
O Morgan Stanley e o Deutsche Bank, por exemplo, estão captando bilhões de yuans pagando taxas inferiores a 3% ao ano. Esse custo é significativamente menor do que pagariam caso captassem recursos em dólares americanos ou em euros.
São instituições consideradas "grandes demais para falir" (too big to fail) nos Estados Unidos e na Europa. Mesmo assim, precisam participar ativamente do mercado de Panda Bonds para atender seus clientes corporativos que mantêm operações comerciais com a China.
Esse passou a ser o raciocínio predominante entre as grandes instituições financeiras. Por essa razão, atualmente os bancos são mais ativos nesse mercado do que muitos governos e grandes empresas.
O custo do capital é um dos principais fatores que determinam a competitividade empresarial. Em junho de 2026, os Estados Unidos remuneravam seus títulos públicos de dez anos com juros de 4,39% ao ano. Considerando a inflação real americana, essa remuneração pode nem cobrir essa perd
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