SIONISTAS E NAZISTAS, SEMPRE DE MÃOS DADAS
A utilização de viagens patrocinadas para influenciar lideranças políticas, religiosas e intelectuais, com tudo pago para Israel, desperta revolta em mentes sãs. Afinal, que tipo de gente vai viajar para ajudar a fazer propaganda para o Estado sionista no meio do Holocausto palestino? A resposta é: nazistas. Os seus equivalentes de hoje e os dos anos trinta. Na década anterior à consolidação do Estado de Israel como ente independente em dezenove quarenta e oito, o movimento sionista já compreendia que conquistar influenciadores no exterior era tão importante quanto exterminar palestinos no processo. Uma política produzia a legitimidade, a outra executava o projeto. Um dos episódios mais conhecidos desse modus operandi ocorreu em dezenove trinta e três, quando o jornalista, escritor e oficial da SS chefe do Departamento de Assuntos Judaicos da Alemanha Leopold von Mildenstein visitou a Palestina ocupada pelos britânicos na iminência de se tornar Israel acompanhado do dirigente sionista careca Kurt Tuchler. Décadas depois, Israel transformaria esse tipo de aproximação em um dos principais instrumentos de suas relações públicas, financiando visitas de parlamentares, jornalistas, pastores, acadêmicos, youtubers e influenciadores digitais para apresentar sua narrativa sobre o conflito no Oriente Médio. Desde o vereador ao influenciador de maquiagem faz o tour de genocídio para voltar e fazer propaganda do apartheid em casa.
Na Alemanha nazista dos primeiros anos do regime hitlerista, a prioridade do governo era incentivar a expulsão dos judeus alemães. Nesse contexto, Leopold von Mildenstein, então responsável pela seção judaica do Serviço de Segurança, passou a enxergar o sionismo como um instrumento útil para acelerar esse processo de limpeza étnica germânica. Em dezenove trinta e três, aceitou o convite do líder sionista com pouco cabelo Kurt Tuchler para visitar a Palestina e conhecer de perto os assentamentos judaicos e a estrutura que estavam criando. Mildenstein visitou as principais cidades e centros do movimento sionista, observando de perto a construção do chamado Lar Nacional Judaico. Em Jerusalém, participou de encontros com intelectuais, jornalistas e escritores sionistas, incluindo uma visita à residência do escritor Moshe Yaakov Ben Gavriel, onde discutiu o futuro do empreendimento nacional judaico com membros da elite cultural da comunidade judaica local. Também percorreu Tel Aviv, impressionando-se com o crescimento urbano acelerado da cidade, suas obras, comércio e infraestrutura, que via como demonstração da capacidade organizacional dos colonos judeus. Ao longo da viagem, Mildenstein visitou ainda Haifa, onde conheceu o porto que servia como principal porta de entrada para a imigração judaica europeia, além de diversos kibutzim e moshavim espalhados pelo território. Nessas comunidades agrícolas, observou o cotidiano dos pioneiros sionistas, conhecidos como halutzim, acompanhando seu trabalho na agricultura, na irrigação e na construção de novos assentamentos. Chamou lhe a atenção o fato de muitos desses colonos serem antigos profissionais urbanos da Europa que haviam abandonado suas carreiras para se dedicar ao trabalho agrícola na Palestina. Para Mildenstein, esse processo representava uma transformação profunda da identidade judaica, convertendo comerciantes, advogados, médicos e intelectuais em agricultores e trabalhadores rurais comprometidos com a construção de uma pátria nacional. Durante a viagem, também conversou com dirigentes da Agência Judaica e de outras instituições responsáveis pela imigração, colonização agrícola e planejamento econômico do Yishuv, buscando compreender como funcionava a absorção de novos imigrantes vindos da Europa e quais eram as perspectivas de expansão do projeto sionista.
A viagem durou vários meses e resultou na publicação da série de artigos Um nazista viaja à Palestina, publicada no jornal nazista Der Angriff, editado por Joseph Goebbels.
Nos textos publicados após a viagem, Mildenstein demonstrava respeito pela capacidade organizacional dos colonos sionistas e afirmava que o nacionalismo judaico poderia oferecer uma solução para aquilo que os nazistas chamavam de questão judaica. Para ele, quanto mais judeus emigrassem para a Palestina e fizessem seu país lá às custas dos palestinos, mais rapidamente a Alemanha se tornaria livre de judeus. Essa posição levou o próprio jornal nazista a publicar uma medalha comemorativa trazendo, de um lado, a suástica e, do outro, a Estrela de Davi, acompanhando a série de reportagens. Sionismo e nazismo davam as mãos, e a comunidade judaica em peso ficava contra, pois via que o movimento minoritário na época fazia o jogo dos antissemitas e legitimava seus argumentos. O episódio ilustra uma fase inicial das relações entre setores do movimento sionista e autoridades alemãs.
Poucos meses depois, surgiu o chamado Acordo de Haavara de dezenove trinta e três, firmado entre autoridades econômicas alemãs e representantes do movimento sionista, permitindo que judeus emigrassem para a Palestina transferindo parte de seus bens por meio da compra de produtos alemães, incluindo as armas para furar corpos palestinos. Segundo o Yad Vashem, aproximadamente cinquenta mil judeus utilizaram esse mecanismo entre dezenove trinta e três e dezenove trinta e nove. O acordo permanece um dos episódios mais controversos da história do sionismo justamente porque evidencia que, naquele momento inicial, interesses distintos convergiam em torno da emigração judaica para a Palestina, mas não foi o único. Outra liderança sionista, no ano seguinte ao esgotamento do acordo em dezenove trinta e nove, Avraham Stern, em janeiro de dezenove quarenta e um, sugeriu uma aliança ainda mais profunda, de natureza militar, para combater os ingleses com ajuda do Lehi. É neste mesmo ano que, em novembro, o mufti de Jerusalém vai à Alemanha, tentar pedir ajuda por quem já ajudava os sionistas há anos contra britânicos e sionistas.
O caso de Mildenstein demonstra que o movimento sionista já compreendia, ainda antes da criação de Israel, a importância estratégica de convencer formadores de opinião estrangeiros por meio da experiência direta. Ao conhecer pessoalmente os kibutzim, os assentamentos agrícolas e as instituições judaicas na Palestina, Mildenstein retornou à Alemanha criando uma narrativa muito mais favorável ao projeto sionista do que possuía anteriormente. Não se tratava de convencê lo a abandonar o antissemitismo, na verdade, era justamente ele que viabilizava a colonização, mas de direcioná lo para uma política que favorecesse a emigração judaica.
Após a fundação de Israel, em dezenove quarenta e oito, essa lógica evoluiu para uma política permanente de diplomacia pública e hasbara, termo hebraico frequentemente traduzido como explicação ou esclarecimento, mas utilizado para designar o conjunto de ações voltadas à promoção da imagem internacional do Estado israelense. Desde então, sucessivos governos israelenses passaram a organizar programas destinados a deputados, juízes, senadores, prefeitos, pastores evangélicos, sacerdotes cristãos, jornalistas, produtores de conteúdo e criadores de mídia digital. Entre as instituições envolvidas destacam se o Ministério das Relações Exteriores de Israel, o Ministério da Diáspora, a StandWithUs, a Maccabee Task Force, a Israel on Campus Coalition, a Birthright Israel e diversas organizações voltadas ao diálogo com lideranças cristãs, que, ironicamente, são a maior demografia sionista do mundo, mas não pelos motivos de solidariedade judaica, mas por enxergar nos judeus os cumprimentos de profecias que culminam em sua morte e envio ao inferno se não quiserem aceitar Jesus como seu deus. Acreditam na mesma solução dos nazistas, mas querem que Jesus o faça.
Não existe uma estatística oficial consolidada sobre o número total de participantes nem sobre os gastos anuais dessas iniciativas, justamente porque os programas são administrados por diferentes ministérios, fundações privadas e organizações internacionais. Entretanto, somente o programa Birthright Israel já levou mais de oitocentos e cinquenta mil jovens de dezenas de países desde sua criação em dezenove noventa e nove. Paralelamente, organizações cristãs promovem continuamente caravanas destinadas a pastores e líderes evangélicos, especialmente dos Estados Unidos, Brasil, Coreia do Sul e países africanos. Da mesma forma, programas voltados para parlamentares e jornalistas recebem continuamente delegações estrangeiras financiadas parcial ou integralmente por instituições israelenses ou organizações parceiras.
A lógica dessas viagens é relativamente simples do ponto de vista das Relações Internacionais. Em vez de convencer interlocutores exclusivamente por documentos ou campanhas publicitárias, procura se oferecer uma experiência presencial cuidadosamente planejada. Os participantes visitam museus, memoriais do Holocausto, instalações militares, comunidades próximas à Faixa de Gaza, centros tecnológicos, universidades, locais religiosos e encontros com autoridades israelenses. Tudo roteirizado e encenado. A expectativa é que retornem aos seus países, reproduzindo espontaneamente a narrativa construída durante a viagem. Trata se de um mecanismo clássico de soft power, conceito desenvolvido por Joseph Nye para explicar formas de influência baseadas na atração, na construção de legitimidade e na formação de consensos, e não apenas na coerção militar.
Sob os governos de Benjamin Netanyahu, essa estratégia adquiriu importância ainda maior. Paralelamente ao fortalecimento ainda que tímido, das campanhas internacionais de Boicote, Desinvestimento e Sanções palestinas, Israel ampliou investimentos em diplomacia pública e comunicação estratégica, incluindo campanhas voltadas para redes sociais, produção de conteúdo digital e aproximação com influenciadores capazes de atingir milhões de pessoas em diferentes idiomas.
Outro aspecto frequentemente debatido na literatura especializada diz respeito à aproximação diplomática de Netanyahu com líderes nacionalistas europeus e latino americanos que já haviam sido acusados de minimizar o Holocausto, relativizar crimes antissemitas ou manter alianças com movimentos da extrema direita europeia. Diversos pesquisadores observam que a política externa israelense passou a priorizar o apoio geopolítico desses governos em fóruns internacionais, mesmo quando suas trajetórias apresentavam episódios de retórica considerada antissemita. Mas para quem se aliou ao nazismo, o que é se aliar ao sabor nazismo? Em dois mil e dezessete nos Estados Unidos, neonazistas gritaram que os judeus não iriam os substituir, com tochas marchando à noite, Trump, diante da aberração, disse que ali tinha muita gente decente, e Netanyahu lhe presenteou posteriormente, nomeando parte das Colinas de Golã como Colinas Trump. Enquanto foram chamados de antissemitas e condenados por Netanyahu os adolescentes, muitos deles judeus, que protestavam contra o genocídio em Gaza.
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