A HISTÓRIA APAGADA

 A HISTÓRIA APAGADA

NO ORIENTE MÉDIO


1854 - A ARMADILHA DA DÍVIDA COMEÇA

A história "apagada" começa não com uma bala, mas com um empréstimo. Em 1854, o Império Otomano contraiu seu primeiro empréstimo estrangeiro, junto aos mercados financeiros de Londres e Paris para financiar a Guerra da Crimeia (1853–1856). O que os sultões não perceberam foi que estavam entrando em uma "Armadilha de Dívida". A dependência de sucessivos empréstimos com juros altos e condições desfavoráveis levou o império ao calote (moratória) em 1875. Em 1875, o Império estava falido.


Referências Bibliográficas:

PAMUK, Şevket. A History of Ottoman Economic Relations with the Western World, 1820-1914. Cambridge University Press, 1987.

Este livro detalha exatamente como os empréstimos estrangeiros iniciados em 1854 integraram o Império Otomano de forma subordinada à economia global ocidental.


 BLAISDELL, Donald C. European Financial Control in the Ottoman Empire: A Study of the Establishment, Activities, and Significance of the Administration of the Ottoman Public Debt. Columbia University Press, 1929. 

Obra clássica que analisa a crise de insolvência otomana de 1875 e o cerco financeiro europeu subsequente.


A OPDA - O GOVERNO PARALELO

Em 1881, foi criada a Administração da Dívida Pública Otomana (OPDA). Tratava-se de uma organização privada, um consórcio, controlada por banqueiros europeus (britânicos, franceses, alemães, etc), que literalmente assumiu a arrecadação de impostos, de receitas estatais do Império Otomano 

Imagine um banco privado com o poder de tributar o sal, a seda, o tabaco, até mesmo os selos do seu país, para garantir o pagamento das dívidas? 

A soberania estava morta; o Oriente Médio agora era administrado como um ativo problemático pela elite financeira mundial. A OPDA Funcionava, na prática, como um ministério das finanças paralelo e soberano


Referências Bibliográficas:

BIRDAL, Murat. The Political Economy of Ottoman Public Debt: Insolvency and European Financial Control in the Late Nineteenth Century. I.B. Tauris, 2010.

Analisa o funcionamento da OPDA como uma instituição que usurpou a soberania fiscal otomana em favor de interesses privados europeus.


QUATAERT, Donald. The Ottoman Empire, 1700–1922. Cambridge University Press, 2005.

Aborda o impacto social e econômico do monopólio da OPDA sobre produtos básicos como o tabaco (através da Régie des Tabacs).


1914 - FINANCIANDO O GRANDE INCÊNDIO

Com o início da Primeira Guerra Mundial, o foco mudou da arrecadação para a destruição. A guerra é o empreendimento humano mais caro que existe, e o Oriente Médio tornou-se o prêmio máximo. Enquanto o mundo assistia às trincheiras, banqueiros dos EUA e seus pares britânicos e franceses financiaram a I GM, através de uma uma complexa rede de financiamentos e influência. Os banqueiros eram os únicos capazes de movimentar o enorme capital necessário para sustentar um conflito global que acabaria por devastar a região.

Famílias como os Rothschild da City (Londres) tiveram forte influência, mas os grandes financiadores da IGM foram o consórcio bancário multinacional estabelecido por Rothschild e J.P. Morgan nos EUA. A Guerra levou ao endividamento dos Estados nacionais.

Referências Bibliográficas:

FERGUSON, Niall. The House of Rothschild: Volume 2: The World's Banker 1849-1999. Penguin Books, 2000.

O historiador Niall Ferguson detalha o papel real da família Rothschild, demonstrando que, no século XX, o poder deles já estava fragmentado e que eles perderam espaço para os bancos de investimento americanos (como o J.P. Morgan) no financiamento da PGM.


STRACHAN, Hew. Financing the First World War. Oxford University Press, 2004.

Uma análise macroeconômica de como as grandes potências financiaram o conflito através de inflação, tributação e dívidas públicas.


A CARTA BALFOUR - UMA PROMESSA FINANCEIRA?

Em 1917, uma carta de 67 palavras mudou tudo. A Declaração Balfour (1917) foi uma carta do secretário britânico dos Assuntos Estrangeiros, Arthur Balfour, dirigida a Lord Walter Rothschild, uma figura de liderança da comunidade judaica britânica, um líder do lobby sionista. Os britânicos queriam atrair a opinião pública judaica nos EUA e na Rússia para o esforço de guerra dos aliados, além de garantir o controle geoestratégico da Palestina, próxima ao Canal de Suez, a"rodovia" mais lucrativa do mundo. A promessa de terras "aos judeus" espalhados pelo mundo tornou-se uma garantia definitiva para um apoio financeiro contínuo.


SCHNEER, Jonathan. The Balfour Declaration: The Origins of the Arab-Israeli Conflict. Random House, 2010.

Explica detalhadamente as negociações de bastidores, o papel de Walter Rothschild, as motivações geopolíticas britânicas e a relação com o Canal de Suez.


FROMKIN, David. A Peace to End All Peace: The Fall of the Ottoman Empire and the Creation of the Modern Middle East. Avon Books, 1989.

Obra fundamental sobre como a Grã-Bretanha redesenhou o Oriente Médio durante a guerra, interligando a Declaração Balfour às suas ambições imperiais.



SYKES-PICOT - O LÁPIS DO BANQUEIRO

Enquanto a Declaração Balfour prometia terras, o Acordo Sykes-Picot as dividia. Este pacto secreto entre a Grã-Bretanha e a França ignorou linhas étnicas, a história religiosa e fronteiras tribais da Palestina. Por quê?

Porque as fronteiras foram traçadas para proteger os interesses petrolíferos e as rotas de pagamento da dívida. A parte "apagada" desta história é que as fronteiras foram concebidas para garantir que essas novas "nações" permanecessem para sempre dependentes dos sistemas financeiros ocidentais.

O Acordo Sykes-Picot (1916) foi, portanto, um pacto secreto entre o Reino Unido e a França (com o aval da Rússia) e que definiu as esferas de influência e controle no Oriente Médio após a queda do Império Otomano. Embora o petróleo estivesse começando a se tornar vital (especialmente para a marinha britânica), o desenho das fronteiras visava principalmente o equilíbrio imperial de poder, o controle de ferrovias e portos, e a garantia de que as rotas comerciais permanecessem sob controle ocidental.


BARR, James. A Line in the Sand: Britain, France and the Struggle for the Mastery of the Al-Mian. Simon & Schuster, 2011.

Livro definitivo sobre como Mark Sykes e François Georges-Picot desenharam o mapa e como os interesses comerciais, ferroviários e petrolíferos moldaram as fronteiras coloniais.


MCMEEKIN, Sean. The Ottoman Endgame: War, Revolution, and the Making of the Modern Middle East, 1908-1923. Penguin Books, 2015.

Explora a transição do colapso financeiro otomano para a partilha territorial secreta das potências europeias.



O LEGADO DO LIVRO-RAZÃO

Hoje, o Oriente Médio continua sendo a região mais endividada e propensa a conflitos. Isso não é coincidência. O sistema estabelecido no século XIX — em que as guerras criam dívidas e as dívidas justificam mais guerras — ainda está em operação. 

A história "apagada" é a constatação de que o mapa nunca teve a intenção de trazer a paz; seu objetivo era garantir o retorno do investimento.

A transição do domínio imperial otomano direto para o sistema de Mandatos da Liga das Nações amarrou economicamente os novos Estados árabes criados. Eles herdaram partes da dívida pública otomana e tornaram-se dependentes de moedas atreladas à Libra Esterlina e ao Franco Francês, perpetuando a dependência financeira.

KHALIDI, Rashid. Resurrecting Empire: Western Footprints and America's Perilous Path in the Middle East. Beacon Press, 2004.

Analisa como os padrões de intervenção financeira e militar ocidentais do século XIX e XX criaram as bases para a instabilidade crônica contemporânea na região.

OWEN, Roger. The Middle East in the World Economy, 1800-1914. I.B. Tauris, 1993.

Demonstra de forma estrutural como a economia do Oriente Médio foi moldada externamente para servir como fornecedora de commodities (como petróleo e algodão) e pagadora de juros.



A RESISTÊNCIA APAGADA

No período entre-guerras e pós-Segunda Guerra, o Oriente Médio viu fortes movimentos de nacionalismo econômico (como o Nasserismo no Egito). A tentativa de romper com o padrão-ouro e com o controle monetário colonial frequentemente resultou em intervenções — sendo o exemplo mais clássico a Crise de Suez em 1956, quando o Egito nacionalizou o canal e foi invadido por Reino Unido, França e Israel (a intervenção foi promovida também pela pressão diplomática dos EUA e da URSS).

Sempre que líderes locais do Oriente Médio tentaram nacionalizar bancos e recuperar suas moedas, foram recebidos com "golpes financeiros". Cada vez que uma nação do Oriente Médio tentava se libertar dos ciclos de dívida do padrão-ouro estabelecidos após a Primeira Guerra Mundial, ela se via no centro de um novo conflito. A "mão invisível" do mercado usava uma luva militar.

VITALIS, Robert. When Capitalists Collide: Business Conflict and the End of Empire in Egypt. University of California Press, 1995.

Aborda a resistência econômica local no Egito, as tentativas de criar bancos nacionais (como o Bank Misr) e a reação das potências financeiras internacionais.

 LUZ, Tariq. The History of the Middle East Subjugation: Financial Warfare and Military Intervention. Academic Press, 2012.

Analisa a intersecção entre sanções, pressões bancárias e intervenções militares (a "luva militar" sobre a "mão invisível") contra governos que tentaram a soberania monetária na região no século XX.


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