Conectividade no Irã

 A Guerra dos Corredores de Conectividade Eurasiana e o Papel Estratégico do Irã


O conflito iniciado por Israel e Estados Unidos contra o Irã redefine a geopolítica e interfere nos corredores de conectividade econômica, paradigma central da integração eurasiana no século XXI. Esses corredores interligam os principais atores Eurásia, nos eixos leste-oeste e norte-sul.


Quatro vetores destacam-se: a Nova Rota da Seda (Belt and Road Initiative, BRI), liderada pela China; o Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul (INSTC), envolvendo Rússia, Irã e Índia; o Corredor Índia-Oriente Médio (IMEC); e rotas propostas ligando Turquia a Catar, Síria e Iraque.


A localização geográfica do Irã, histórica nas Antigas Rotas da Seda, foi reativada pela BRI a partir de 2013. O Acordo China-Irã (2021, US$ 400 bilhões) inclui um corredor terrestre integrado à BRI, concebido para contornar o domínio marítimo estadunidense, sanções e gargalos estratégicos (Estreito de Malaca, Ormuz, Bab-el-Mandeb, Canal de Suez). Em maio de 2022, inaugurou-se a rota ferroviária Xian (China) – Aprin (Irã), reduzindo o tempo de trânsito de 40 dias (marítimo) para 15 dias (terrestre). Aprin, como porto seco, conecta o corredor aos portos do Cáspio e do Golfo Pérsico.


A ferrovia China-Irã recalibra a importância do Corredor Econômico China-Paquistão (CPEC), diante da instabilidade política paquistanesa. O Irã equilibra sua política entre China e Índia, ambos com interesse estratégico em portos iranianos (como Chabahar), vistos como portas de entrada para a Ásia Central. Chabahar compete diretamente com o porto paquistanês de Gwadar (BRI), distantes cerca de 80 km.


O INSTC funciona como vetor norte-sul, conectando Rússia, Irã e Índia e cruzando os eixos leste-oeste da BRI. Até o conflito, a Índia via Chabahar como sua principal rota para a Eurásia. Após ataques recentes e alinhamento indiano com Israel, os investimentos indianos em Chabahar encontram-se suspensos, enquanto a China avança com planos de investimento na província de Sistão-Baluchistão. O Irã tende ao pragmatismo estratégico, diante do abandono indiano de sua autonomia tradicional.


O IMEC – corredor Índia-Oriente Médio-Europa, na prática orientado por Israel – é interpretado como resposta ocidental tardia à BRI. Seus objetivos incluem conter China e Irã. O conflito atual inviabiliza o IMEC: o porto de Haifa foi danificado, e há divergências entre Arábia Saudita (propensa à acomodação) e Emirados Árabes Unidos (em confronto com Teerã). Grande parte da infraestrutura planejada (milhares de quilômetros de ferrovias) encontra-se inviabilizada ou destruída.


A Turquia promove projetos energéticos no chamado "Pipelinestan", incluindo os oleodutos Baku-Tblisi-Ceyhan (BTC), Turk Stream e propostas como a conexão Basra-Ceyhan e um eventual gasoduto Catar-Turquia (orçado em US$ 15 bilhões). O Gasoduto Transcaspiano (Turcomenistão-Azerbaijão), com custo estimado de US$ 2 bilhões, enfrenta limitações de capacidade e dependência da infraestrutura chinesa. A maioria desses projetos permanece inviável ou em estágio inicial.


A guerra contra o Irã acelera algumas interconexões, como o comércio Paquistão-Irã-Ásia Central via sistema TIR, contornando o Afeganistão. Paralelamente, a Rota do Mar do Norte (Ártico) desponta como eixo futuro, com interesse de China, Índia e Coreia do Sul. Apesar dos ataques a nós do INSTC e da BRI (Bandar Anzali, Isfahan, Bandar Abbas, Chabahar e trechos ferroviários), o processo de integração eurasiano mantém-se em curso, resistindo à pressão geopolítica.


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